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Como seria Lisboa em 1755, em vésperas do violento terramoto que arrasou grande parteda cidade? A resposta à curiosidade natural de todos nós, lisboetas ou não, encontra-se no projecto que uma equipa multidisciplinar de técnicos da Câmara Municipal de Lisboa concebeu ao longo dos últimos cinco anos. O resultado é uma maqueta virtual que, a partir de dia 25, passará a ser disponibilizada ao público, no Museu da Cidade, e onde vai ser possível viajar através de modelos tridimensionais do Terreiro do Paço ou do Rossio, e assistir a recriações de cenas históricas, como a Procissão do Corpo de Deus ou os tenebrosos Autos de Fé. Para esclarecer melhor alguns pormenores deste ambicioso projecto sobre Lisboa em1755, a Lisboa Cultural falou com a coordenadora do projecto, Ana Cristina Leite, acerca da importância que esta maqueta vai ter no aprofundar do conhecimento histórico sobre a nossa cidade. ‎[...]

Lisboa à beira do Terramoto

A antiga sala onde se podia ver uma das obras mais emblemáticas do Museu da Cidade – a maqueta representativa de Lisboa antes do Terramoto de 1755 – vestiu-se a rigor para receber o multimédia. Numa viagem pelo passado, sem esquecer o futuro, a Lisboa Cultural convida-o a uma visita pela capital tal como ela era exactamente no dia antes do Terramoto.

A 1 de Novembro de 1755, Lisboa acordou para umdia temeroso. Por volta das 9h30, um terramoto abalou não só a vida da cidade e dos lisboetas como também de todo o país. A 25 de Novembro de 2010, 255 anos depois, o Museu da Cidade apresenta Lisboa 1755 – umprojecto tridimensional que mostra alguns dos edifícios mais emblemáticos, praças e ruas da capital, no dia antes do Terramoto de 1755. Em 2005, na altura em que se evocavamos 250 anos da passagem do Terramoto, uma equipa multidisciplinar do Museu da Cidade – composta por Carlos Loureiro, Rita Fragoso d’ Almeida, Paulo Sales e Margarida Almeida Bastos – propôs-se a fazer uma reconstituição 3D de Lisboa, tendo por base a maqueta executada, entre os anos de 1955 e 1959, por Ticiano Violante para a exposição Reconstrução da Cidade depois do Terramoto de 1755, apresentada no Palácio Galveias em 1955.

O resultado é a reconstituição de 23 pontos notáveis que documentam, na primeira metade do séc. XVIII, algumas ruas, praças, igrejas, conventos, edifícios públicos e palácios, muitos deles desaparecidos ou alterados em sequência do terramoto, permitindo conhecer melhor a Lisboa barroca. Para nos falar sobre o projecto estivemos com Ana Cristina Leite, chefe da Divisão de Museus e Palácios da Câmara Municipal de Lisboa, que coordenou os trabalhos.

Tendo em conta que a maqueta original começou a ser construída em 1955, como é que 50 anos depois surgiu a ideia de retomarem o projecto, cujo resultado é esta reconstituição virtual?
A ideia do projecto resume a vontade muito antiga de valorizarmos aquela peça, que é uma das mais emblemáticas do museu, e usá-la para compreender e explorar aquela informação. 50 anos depois – foi em 2005 que iniciámos o projecto – estávamos a evocar os 250 anos da passagem do Terramoto, logo, acabou por ser uma coincidência que veio de uma vontade antiga. Com as tecnologias novas que hoje temos à disposição, decidimos aplicá-las e daí surge a ideia de fazer um modelo virtual, multimédia, que é um produto
não fechado que possibilitaria, inclusivamente, corrigir algumas informações dessa maqueta, feita com os conhecimentos de há 50 anos atrás. Portanto, a nossa maqueta virtual difere da maqueta original e vai muito mais além, dando-nos a possibilidade de acrescentarmos elementos e de corrigirmos modelos, conforme a investigação for evoluindo. Com o objectivo de avançar nesse conhecimento e mostrar o que se sabe da cidade nas vésperas do terramoto.

Da maqueta original para esta reconstituição virtual, foram detectadas diferenças significativas?
Muitas. Temos de ter em conta que a maqueta tem uma determinada escala, sobretudo em relação aos edifícios, e não tem um grau de pormenor e de realismo que esta modelação tridimensional possibilita. Para além disso, há muita informação que se foi descobrindo. O Hospital Real de Todos os Santos, por exemplo, foi alvo de uma intervenção arqueológica que possibilitou a descoberta de nova documentação, o que nos permitiu fazê-lo com mais rigor; continuando no Rossio, o Palácio dos Estáus que aparece na maqueta é o Palácio antes de uma grande intervenção no século XVII, que o aumenta, quando é transformado de Palácio Régio, do tempo de D. Pedro II, para Palácio da Inquisição, e o edifício que se pode ver na reconstituição é o edifício anterior do tempo de D. Pedro II, e não este último. A par destes exemplos, importa ainda referir o facto de passarmos a ter uma outra forma de olhar os objectos, relativamente a todo aquele complexo do Paço da Ribeira, Casa da Ópera e Patriarcal, onde sabemos existirem elementos que persistiram e que foram reutilizados, como uns cunhais ainda visíveis na zona da Ribeira das Naus, onde se encontra actualmente o Arsenal da Marinha, e que são nitidamente resquícios da Casa da Ópera.

Carlos Loureiro, Rita Fragoso d’ Almeida, Paulo Sales, Ana Cristina Leite e Margarida Almeida Bastos (da esquerda para a direita)

Considera que com esta visualização a 3D as pessoas vão olhar para a cidade de outra maneira?
O nosso objectivo é esse. Que as pessoas olhem para a cidade de outra maneira e a consigam compreender de outra forma e um pouco mais. Enquanto a maqueta objecto físico dá aquela ideia global da cidade com as suas colinas, aqui não conseguimos vê-la toda na sua globalidade, estamos sempre a vê-la em troços, mas com pormenor, como se estivéssemos numa rua ou em frente a um edifício, a olhar para ele e a descobri-lo, a vê-lo como era. Queremos precisamente apelar às pessoas para que consigam fazer essa comparação entre a cidade que lá está hoje e perceber o que é que caiu dos edifícios, como é que eles se modificaram posteriormente e como eram antes. O exemplo mais paradigmático, e que é hoje o único edifício que nos dá uma memória do Terramoto apesar de ser uma ruína romântica, é o Carmo. Houve uma parte que ruiu, mas que depois ainda começou a ser trabalhada e reconstruída, acabando por se manter como uma ruína que as pessoas lembram ter sido resultado do Terramoto de 1755. SF

 

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