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Recebido por correio electrónico, do amigo José do Carmo Francisco

Os meus três filhos, nascidos no Bairro Alto, quando chegaram à idade adulta não encontraram condições para viver neste seu espaço. Vivem todos longe do Bairro onde brincaram, onde foram à Escola e onde deixaram os pais e os amigos. A Câmara Municipal de Lisboa nunca teve tempo para olhar pela melhoria das condições de vida no nosso Bairro. Tinha e tem outras prioridades. No passado mês de Junho um residente no Bairro morreu de noite num sofá, incapaz de aguentar o ruído, a prepotência e os insultos dos proprietários de um bar instalado no seu prédio. Na Assembleia de Freguesia fiquei ao lado da viúva e percebi nos soluços a profundidade do seu drama. Em vez de fechar o bar a Câmara enviou os bloqueadores da Polícia Municipal para multarem os residentes que tinham colocado as viaturas no muro do Instituto de S. Pedro de Alcântara onde não há janelas nem portas. E, não contente com a carnificina dos bloqueadores no dia 16-6-2009, autorizou os bares a abrirem até mais tarde. Logo na primeira noite um rapaz morreu vítima de uma navalhada numa esquina. Depois de um idoso, vítima da ganância de uns e da estupidez de outros, morreu um jovem na flor da idade. Os donos dos bares não podem pensar que só eles existem a não ser que a Câmara Municipal já lhes tenha prometido transformar o Bairro num espaço sem ninguém. Assim como o Bairro das Meninas de Amesterdão. Eu estive lá em 1977. Os meus filhos foram expulsos do Bairro, a nós estão a dar cabo da vida para que a paisagem seja apenas povoada pela ganância e pela estupidez. O nosso Bairro que já foi espaço de vida é hoje campo de morte e será dentro de pouco tempo uma gaiola das malucas. Os dois mortos são a factura já paga.

Dediquei a tarde de sábado a percorrer as ruas do bairro que conheço de cor, no intuito de identificar património degradado e/ou ao abandono. A tarefa revelou-se de uma completa inutilidade, tamanha foi a imundície que encontrei. Cheira mal, as ruas estão um nojo, tudo aquilo me incomodou muito.
Sobre o assunto património, estes amigos de Lisboa estão a tentar ajudar…

Vou ao BA de vez em quando para um copo e penso sempre que será impossível para aquelas pessoas habituarem-se ao barulho, ao cheiro a urina quando saem de casa na manhã seguinte.
Em abono da verdade, nunca conheci o bairro limpo. Mas as ruas lá iam sendo lavadas e os prédios já velhos eram habitados por gente que gostava do seu bairro.

Hoje ninguém gosta, por mais que encolham os ombros, conformados. Basta levantar os olhos e olhar para as varandas e ver as poucas pessoas que estão às janelas, que já foram cuidadas, para ver que olham desconfiadas quem passa.

Quem gosta do bairro hoje são os proprietários dos bares e restaurantes (não há ninguém que os impeça de deitar lixo na rua, já que eles não têm essa decência?) e lojas da moda que viram bar no mês seguinte, se a coisa correr mal. Ah, e os dealers.
Os novos habitantes, gente que pode fazer alguma coisa se quiser, estão-se nas tintas, as Juntas de Freguesia perderam por completo o controle da situação e os políticos levam lá os media para serem vistos a dar umas mangueiradas nas paredes e aliviar as consciências.
Não é falta de empenhamento, não sabem mais.

Obviamente, só a limpeza não resolve os muitos e graves problemas do Bairro Alto, mas não me lixem! Se ao Presidente lhe desse um vipe igual ao do Terreiro do Paço e se empenhasse – só um bocadinho -, a praga das tags resolvia-se em três tempos.
Por este andar, três mandatos são suficientes para matar o bairro.

Le Roi Est Mort. Vive Le Roi!

 

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